sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Vitor Cabral - Sensibilidade e Arrojo


25 de agosto de 2009, terça-feira chuvosa em São Paulo, mas dentro do Auditório do Sesc o que se viu passar durante a apresentação de Roberto Sion e banda no Instrumental Sesc Brasil foi algo quente e revigorante para qualquer humano. Uma grata surpresa foi poder ver e ouvir Vitor Cabral, baterista da banda, junto também ao grande baixista Sidiel Vieira e o consagrado guitarrista Hélio Delmiro.


A banda apresentou famosos temas brazoocas e de jazz, e composições próprias de Roberto Sion. Sion mostrou uma musicalidade absurda em suas improvisações e melodias. Sou suspeito para falar, pois sou baterista, mas um dos principais destaques da noite foi o batera Vitor Cabral com a sua alta perfomance, gosto pela música, comunicação com os músicos e sensibilidade apuradíssima.

Algo que poucos músicos realmente sabem fazer bem, Vitor o faz com propriedade, que é usar todo o seu vocabulário musical a serviço da música, isto é, ele consegue servir a música do conjunto e ao mesmo tempo utilizar seu extenso vocabulário sempre tocando a 100 Km/h, com 100% de uso de sua dimensão musical total.
Foi com ele que se seguiu essa entrevista a seguir:


-- Vitor, gostaria que você me contasse um pouco da sua trajetória e formação musical.

Bem, inicialmente eu comecei meus estudos no piano, quando tinha 8 anos de idade. Entre idas e vindas, troquei pela bateria aos 13, quando comecei a tocar na igreja, já que venho de uma família cristã-protestante. Isso foi, no começo, a minha "escola", e sou muito grato por ter tido essa oportunidade, pois além de ser uma forma bastante didática de começar, é possível se criar um relacionamento com a música um pouco diferente dos demais. Nesta mesma idade, ingressei na Fundação das Artes de São Caetano, uma escola bem conhecida no ABC, mas que eu pouco estudei o instrumento de fato, acho que 1 ano somente, perto do final do curso, mas aprendi muito das matérias consideradas "teóricas" lá, como percepção, apreciação, conceitos básicos de harmonia, contraponto e assim por diante, além de ter contato com outros músicos e ser apresentado à música sob uma outra perspectiva. A partir disso eu fui me lapidando musicalmente, procurando ouvir os mais velhos, mesmo que nem sempre o espírito jovial me permitisse. Tive um recesso musical de alguns anos na minha adolescência por questões financeiras e pessoais, e acabei voltando definitivamente há 2...3 anos, quando ingressei no grupo do trombonista Bocato. De lá prá cá voltei a estudar e agora também a trabalhar somente com música.

- O que você acha que mais contribuiu para sua expressividade e sensibilidade na execução das músicas e comunicação com os músicos no palco?

Sobre a expressividade e sensibilidade, é um pouco difícil "nomear" essas influências, acredito estar no início do processo, no entanto, particularmente posso dizer que o estudo de piano foi um fator fundamental para compreender melhor o contexto e aprender a partir daí a me colocar na música. O exercício de ouvir os grandes músicos e outras opiniões à respeito da música, vai formando um "repertório de idéias", solidificando sua personalidade com o passar dos anos. Agora, sobre a comunicação no palco, acredito, plenamente em como, humanamente, você se relaciona com o outro. Eu entendo o "tocar junto" como uma espécie de comunhão, confraternização e, sendo assim, valorizo muito o relacionamento para além da música que procuro ter com quem toco. Mas confesso que nem sempre toco com pessoas que compartilham desse mesmo espírito.

- Quais são novos nomes da música que você indicaria para ouvir?

De bateristas: Brian Blade, Jamire Willians, Chris Dave, e um brazuca que gosto bastante, Daniel de Paula. Outros: Robert Glasper, Meshell Ndegeocello, Kudu, Kenny Werner, Overtone Quartet, David Binney, Mente Clara e o grupo do baixista Marcos Paiva, chamado MP6 que está fazendo um trabalho de resgate e desenvolvimento do samba-jazz muito bom!

- Antes de se apresentar, como você procura se inspirar? Sente a necessidade de ouvir alguma música em especial, ou apenas ouvir música? Ou você pode passar um dia inteiro sem nem ouvir ou tocar uma nota sequer e entrar no palco e estar disposto e inspirado?

Eu entendo que a idéia é a música ser tão presente na sua vida e sua vida tão presente na música que já não se faz uma distinção cartesiana da coisa e isso não é um fanatismo, muito pelo contrário. Poucos músicos conseguiram essa Sabedoria e é neles que me inspiro em minha Caminhada. Sendo assim, procuro sempre estar ouvindo, estudando o instrumento e lendo sobre o que diz respeito não só ao universo musical, mas aos valores mais profundos da vida. Agora, sendo mais específico, antes das apresentações se ouço algo, procuro ouvir o que esteja na idéia estética do que eu vou tocar para que eu possa me manter concentrado na linguagem.

- Dos lugares em que você já tenha tocado, qual mais te tocou?

Sem dúvida nenhuma: " o meu quarto! ", hehehe! Lá tem se dado muito do meu processo.

- Em duas palavras, o que é música para você?

Imanência e Transcendência.



Vídeos c/ Vitor Cabral:

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

InTrio - Composição em Projeção


Basta uma pequena "olhada" sobre os sons do grupo InTrio para se perceber a ressonância magnética de suas composições. Se delineia sobre o simples imponente trio, uma junção de sonoridade jazzística que pouco se vê no meio instrumental brasileiro. Neste primeiro cd do grupo , intitulado "Sábado de Manhã" (nome vindo dos "escassos" sábados de ensaio), a banda apresenta 11 composições autorais, assinadas pelo guitarrista Rafael Said e pelo baixista Bruno Barbosa.


Segundo o site do grupo: "O grupo InTrio se reuniu no início de 2008 em Ribeirão Preto, e é formado por Rafael Said, Bruno Barbosa e Pedro Fillipe. A sonoridade do grupo é marcada por uma fusão de vários segmentos do Jazz, tanto tradicional quanto moderno, não descartando também influências vindas do Funk e da Música Brasileira."


Vale destacar a bela composição "Sábado de Manhã" , que leva o nome do álbum.




quarta-feira, 29 de julho de 2009

Ari Hoenig - Convenção, Precisão, Improvisação


Apesar de suas constantes caretas ao improvisar, Ari Hoenig é extremamente efusivo ao tocar sua bateria. Executa com notoriedade convenções muito bem trabalhadas. Um bom exemplo disso é o trabalho com o Kenny Werner, no Kenny Werner Trio. Já acompanhou além dele, uma grande classe de músicos, entre eles : Jean Michel Pilc Trio, Chris Potter Underground, Kurt Rosenwinkel Group, Joshua Redman Elastic band, Jazz Mandolin Project , Wayne Krantz, Mike Stern, Richard Bona, Pat Martino, Dave Leibman.


Vale a pena conferir:




http://www.drummerworld.com/Videos/Arihoenignewyork1.html -
Ari Hoenig - Jean-Michel Pilc - Jacques Schwarz-Bart - Matt Penman

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Marcos Paiva – Samba no Prato


Música brasileira de primeira qualidade. Essa é a primeira e contínua impressão ao se ouvir as músicas do projeto intitulado “Meu Samba no Prato”, realizado e idealizado pelo baixista, compositor, arranjador e produtor, Marcos Paiva.
É raro um músico ao conceber um álbum, ou que tenha como grande influência um instrumentista de outra especialidade. Foi o caso de Marcos Paiva, baixista que homenageou o baterista Edison Machado através deste projeto de show e futuro álbum.


Abaixo, alguns tons da conversa com o contrabaixista, onde Marcos Paiva fala um pouco sobre sua relação com a música de Edison Machado e o projeto-homenagem do cd :


Vou começar falando de um álbum muito importante para a música brasileira. “Edison Machado é Samba Novo” que para mim continua sendo o álbum de maior referência da discografia instrumental brasileira e um álbum que reúne importantes músicos como o maestro Moacir Santos, o arranjador e clarinetista Paulo Moura, J.T Meirelles que também é um grande arranjador e formador da linguagem do “sambajazz”, o fabuloso trombonista Raul de Souza além de Maciel (trombone de vara), Pedro Paulo (trompete), Tenorio Junior (virtuoso pianista que sumiu na Argentina na época dos golpes militares) e o grande Tião Neto (baixista “referência” da bossa nova e que depois tocou por muitos anos com Tom Jobim). Além de uma energia incrível e de solos (embora curtos) memoráveis, este disco tem arranjos muito inspirados e ao mesmo tempo pensados exatamente pra o líder do grupo. O grupo soa muito unido, muito junto. Respirando e pulsando no mesmo tom.

Edison ficou conhecido aqui no Brasil e até hoje é sua maior, digamos, qualidade, o fato de “ter inventado” a batida de samba utilizando o prato. O que pra nós hoje é lógico, na década de 60 (talvez final de 50) ainda não era. E o fato de ele ter começado a conduzir o samba no prato e não nos tambores (alguns chamavam de cruzadão, imitando a percussão como se era usado), criou uma nova perspectiva sonora que mudou para sempre a forma de se conduzir na bateria. Confesso que isto, que para a maioria das pessoas é o mais importante nele, para mim é só um pequeno pedaço desse grande músico.

Numa época em que baterista era um “quase não músico”, ou apenas o ritmista do grupo, Edison teve uma capacidade única (e artistica) de liderança ao lançar seus próprios trabalhos solos. Ao liderar seus grupos, criou uma forma de tocar com tanta energia e personalidade que até hoje é difícil de ver alguém superá-lo. Não é tocar rápido e não passa pela técnica, passa ao meu ver pela capacidade que poucos músicos conseguem obter na sua trajetória musical, a personalidade. Quando você ouve um disco, basta 5 compassos para saber se é ele tocando ou não. E isso é muito, muito difícil de se conseguir.

A idéia de fazer esse Tributo veio de muitas conversas com amigos e músicos. Sempre reclamei que no Brasil, a linha evolutiva na música instrumental sempre foi quebrada. Começava um negócio legal, e daí parava e começava outro com novos outros músicos que negavam o que estava rolando e partiam para algo totalmente novo (ou em 99% influenciados por algo de fora). Não tenho nenhum preconceito com influências externas seja de onde vier, mas a mim me incomodava e incomoda o fato da falta de continuidade, de negação. Sempre vi em vários países e principalmente nos EUA os tributos e aí pensei, por que não fazer um?? Quando fechei a idéia de fazer um tributo na linha evolutiva do que eu já estava fazendo, pensei na minha maior referência (neste disco, do Edison) e na obra do maestro Moacir Santos. Como este disco também tinha o Moacir e tantos músicos de referência, falei “vou fazer pra ele”.

Daí, veio a segunda questão. Como homenagear e não tocar como eles? Com o tempo amadureci a idéia e inspirei as minhas composições nas músicas do disco. Cada música que criei está completamente ligada à uma música no disco mas sob minha perspectiva sonora. Está sendo ao meu ver, uma forma de também contribuir para a divulgação deste disco nos nossos dias. O baterista do meu grupo, Daniel de Paula, eu o considero o “Edison Machado” dos dias de hoje (rsrs), não pelo fato de ele tocar parecido com o Edison mas pelo fato de ele ter tanta personalidade que ou você ama ou odeia. (O Edison era exatamente assim, muitos amavam e muitos odiavam). Depois chamei os outros amigos que gravaram o meu primeiro (Cassio Ferreira- sax alto, Jorginho Neto- trombone, Edinho Santanna- piano) e só mudei o trompetista, trocando o Rubinho Antunes pelo Daniel Dalcantara que é um músico totalmente inspirado no sambajazz.

Caio, para fechar pois este assunto que daria ainda muito pano pra manga, para mim o que mais me inpressiona nele é sua personalidade, capacidade de liderança e sonoridade (arranjos e energia pura).

Músicas do projeto e sites:
http://www.marcospaiva.com/epk/sambanoprato/
http://www.marcospaiva.com
http://www.myspace.com/marcospaiva
Para informações e downloads de Edison Machado:

domingo, 7 de junho de 2009

Entrevista - Carlos Ezequiel - Alta Voltagem Rítmica



Carlos Ezequiel, baterista, compositor, e professor da Faculdade Souza Lima, impressiona com sua banda Sinequanon, imprimindo junto ao seu grupo, complexidade, improvisações coletivas e polirritmias. Já foi indicado ao Latin Grammy pelo cd Images e participou de festivais como o Montreux Jazz Festival, entre outros.


Sua bateria berra notas compassadas num belo caos elaborado e sincopado. A ardência da conjunção entre os membros da banda ao vivo é plena.


Destaque para os cds Telescópio do grupo Sinequanon e seu cd Images junto à Lupa Santiago.


Veja a seguir entrevista realizada esta semana com o batera:


- Quais são seus principais projetos musicais em atividade e suas próximas empreitadas?


Um dos novos projetos a que estou me dedicando é o lançamento do meu livro "Interpretação Melódica para Bateria". Ele foi lançado aqui no Brasil pela Editora Souza Lima, e também está saindo na Europa, E.U.A. e Japão pela editora alemã Advance Music, o que provavelmente fará com que eu vá à Europa em breve pra divulgá-lo por lá. Além disso, há um monte de coisas acontecendo com os grupos com quem trabalho: o Sinequanon está começando a compor músicas para um novo cd, o MC4+ entra em estúdio esse ano pra gravar o segundo cd, e o SVCD e o Luís Fernando 4teto seguem de vento em popa fazendo shows por SP. O Sinequanon e o MC4+ também devem ter uma turnê pela América do Sul ainda no segundo semestre desse ano. Também tenho uma turnê e uma gravação de um cd programada para setembro, em um projeto do guitarrista baiano Jurandir Santana junto com o saxofonista americano Seamus Blake.

-Carlos, nas suas viagens a exterior, o que você recorda de significativo em termos de diferenças e semelhanças da apreciação da música brasileira, em relação à costumeira recepção e apreciação da música aqui no Brasil?


O que me chama a atenção quando vou tocar em outros países é como, tanto na Europa quanto na América do Sul, há mais integração. Os músicos da Europa viajam muito para tocar com gente diferente, se interessam por outras culturas. Nos outros países da América do Sul também há muito intercâmbio - músicos da Argentina, do Chile e do Uruguai, por exemplo, participam de muitos projetos em comum. O Brasil tem uma posição um pouco mais distante, não apenas do ponto de vista geográfico, mas também por termos uma tradição musical muito forte. Justamente por causa dessa tradição musical forte, eu percebo mais resistência para se aceitar uma música experimental, de vanguarda. A meu ver, termos uma tradição forte deveria ser um motivo para nos estimular a trocar mais experiências com outros músicos e outras culturas. Afinal, é sempre ao aceitar inovações que se criam novas tradições.

-Você acha que a música instrumental (considerando sua complexidade harmônica, rítmica, etc) é uma música inteligível somente para pessoas versadas em teorias e aprendizados musicais, ou você vê uma admiração por parte de pessoas leigas também?


Essa é uma discussão que não fica apenas no campo da música, mas da arte em geral. Há sempre esse questionamento, se a arte pode ser apreciada por leigos. Claro que eu acredito que sim! A arte é subjetiva, e a subjetividade é um processo humano, por isso a arte pode ser apreciada por todos! O que acontece é que música instrumental é uma música subjetiva, de grande comprometimento artístico, e me parece que a sociedade atual supervaloriza a objetividade, assim a arte passa a ser vista como algo que não se pode compreender. Música não é pra se compreender, é pra se sentir, como diria o Hermeto Pascoal.


-Quais os principais nomes da música estrangeira hoje para você?


Essa é uma pergunta difícil. O mundo é grande, há muita gente legal fazendo música fascinante ao mesmo tempo... Mas dá pra citar alguns artistas que tem tido uma produção consistente nos últimos anos: o baixista Dave Holland faz um trabalho maravilhoso com o seu grupo Dave Holland Quintet; o saxofonista Chris Potter tem desenvolvido uma impressionante carreira, produzindo 2 a 3 cds por ano em formações e estilos bastante diversos; o baterista Brian Blade lidera o Brian Blade Fellowship, com lindíssimas composições e interpretações primorosas; o saxofonista Wayne Shorter continua fazendo a música mais sofisticada do momento com o seu quarteto; e o guitarrista Bill Frisell também faz um som que me fascina imensamente.




Para conferir sons, vídeos e mais informações de Carlos Ezequiel, visite:


http://www.youtube.com/watch?v=s31y8FDuvXY - Música : Sol Nascente
http://www.carlosezequiel.com/
http://www.myspace.com/ezequielcarlos

domingo, 31 de maio de 2009

Marco Minnemann - Cinematográfico




Quem já viu alguma performance de Marco Minnemann ao vivo saberá do que estou falando. Há alguns anos atrás tive o privilégio de acompanhá-lo em um workshop ao vivo. Foi um modo totalmente não convencional de se conhecer um artista de tamanho gabarito. Sabem aquelas coisas que só estando lá para ver e saber o que é ? Era isso... Era uma tarde dentro de um auditório com som impecável em São Paulo... Num dia de uma apresentação de vários bateristas de renome nacional e internacional em um festival como aquele, ele surgiu em meio ao palco antes dos bateras serem apresentados. Por não conhecê-lo de antemão, pensei no mesmo momento que ele fosse apenas um roadie ou ajudante de palco ali ajudando o pessoal a organizar a coisa toda. Nunca o taxaria de músico ou baterista. Mera imagem enganadora... Bastou ele subir ao palco para o início de sua apresentação (A primeira da tarde) para chocar o público presente. O cara era um monstro, inabaladamente versátil. Depois de tantos anos, relembro isso aqui porque por ter sido algo inesquecível, por seu modo original de tocar e atuar, em suas composições, levadas e malabarismos (não gratuitos), com um amor ao instrumento e à música levados ao extremo.

Destaque para os CDs Broken Orange , Mieze e o DVD Extreme Drumming.


Vídeos dele:

site:

domingo, 24 de maio de 2009

Entrevista - Rodrigo Digão Braz - Brasilidade


Rodrigo Digão é baterista e percussionista, e já tocou com nomes como Renato Consorte, Ai Yazaki (pianista Japonesa), Michel Leme, Fernando Corrêa e Grupo Mente Clara, além do projeto "Rodrigo Digão Convida" que contou com nomes como André Marques (Hermeto Pascoal, trio Curupira) Fábio Leal, César Roversi, Franco Lorenzon (esses últimos do Mente Clara) Miche Leme e João Paulo Barbosa.

Digão tem uma forma peculiar de tocar que deixa até os ouvidos menos treinados, atentos ao acompanharem ele em suas perícias de interpretação. Suas improvisações e levadas tem um jeito leve, quase com um descompromisso, tocando com sutileza e quase ternura as peles de sua bateria.

Vamos à entrevista:

-Digão, gosto muito da liberdade intuitiva na qual você improvisa. Pode-se dizer que é uma improvisação que procura se libertar de algumas amarras rítmicas? Dá pra explicar isso de forma racional ou de forma metódico-teórica? De onde vem essa inspiração na hora de solar?

Sobre a improvisação, podemos classificar a mesma em duas etapas: "Improvisação Livre" e "Improvisação dentro do Tema". Nessa primeira espécie, a improvisação livre é aquela em que eu penso em um determinado espaço a ser preenchido e tentando ( ao máximo) chegar a uma "paisagem", "fotografia" para assim exemplificar e fazer o ouvinte entender pela Física sonora a imagem em questão. No segundo caso, a própria música ( tema a ser tocado) nos dá elementos e o que procuro fazer é enfatizar com motivos melódicos, rítmicos e até harmônicos (porque não na bateria) desses elementos. Seja como for, a subjetividade das cores, dos objetos nos traz uma riqueza enorme e transformar isso em música é o nosso desafio. Eu posso explicar música por "n" ciências, e chegaremos às mesmas conclusões de sentidos e características gerais do mundo.

-Nas músicas do grupo Mente Clara há uma profunda influência e conexão com a música de Hermeto Pascoal. De onde vem essa paixão do grupo? Quais outras influências você acha tão importante quanto, para obter o resultado do som do grupo?

A influência do Hermeto vem como identificação com a cultura brasileira em geral e para o Grupo (claro que me incluo nesse), e externar essas caracteristicas regionais é nossa maior meta! Como não poderia deixar de mencionar como influências, entre muitas, todas as vertentes do Samba, Baião, Xula, Maracatu, Boi, Capoeira, Afoxé, e música improvisada de genêros vários

-Na sua opinião, qual o principal ingrediente para um músico dominar o seu instrumento ? Muito estudo ? Precisão? Um estado relaxado da mente?

"O corpo movimenta quando a cabeça ordena". Essa máxima também acontece quando falamos de música! O total (ou parcial ) domínio do instrumento deve à equivalente compreensão dessa arte que, volto a frisar, é nada mais nada menos que explanações do cotidiano transformadas em uma nova percepção e exemplificadas em timbres, durações, intensidades e tempos.

-Um improvisador é quase um repentista... Qual a sensação de se errar nestes momentos e isso acabar soando correto e musical?

A sua pergunta é auto-suficiente já contendo a resposta: EM MÚSICA NÃO EXISTE ERRO!! A idéia de que algo resultou "errado" faz com que todo o sentido de improvisação caia por terra, premeditando assim natureza-essência dessa arte. As sensações que em determinado momento seria "X", agora passa a ser "Y", obrigando o executante entender tal diferenciação e conseguir dentro do seu universo musical trazer esse novo elemento sem desordenar ou perder a fluência dos elementos outros envolvidos ( O Tempo e suas variantes, as células ritmicas).

-Quais nomes mais te influenciam na música atual (brasileira e mundial) ?

Nomes, pessoas, conceitos que fazem diferenca no meu trabalho (e porque não, no meu cotidiano): Hermeto Pascoal, Dave Holland Group, Miles Davis ( e suas fases), Stravinsky(compositor erudito), Huberto Rohden (filósofo católico brasileiro da decada de 50), grandes cineastas, pintores, coreógrafos, meus amigos de convivência cotidiana, a crise global, etc. "O artista só tem a real percepção de seu ofício quando todas esssas questões integrarem a sua natureza".
Para conferirem vídeos dele e sua banda, é só visitarem os links:
Programa Rodrigo Digão Concepção Rítmica! No ar todas as Quartas, as 16:00 no www.tvciadamusica.com.br
Abrs!

domingo, 3 de maio de 2009

Transatlantic - Clássico


Transatlantic está de volta! Os caras irão gravar o seu mais novo cd depois de um hiato de 8 anos. A banda de rock progressivo surgiu como um projeto paralelo de membros de bandas como Dream Theater ( Mr. Mike Portnoy), Marillion (Pete Trewavas), The Flower Kings (Roine Stolt), e Spock’s Beard (Neal Morse).
A banda lançou dois álbuns sendo o primeiro no ano 2000 uma compilação de influências diversas como Beatles, Pink Floyd e Yes. Mas o disco soa extremamente natural e original, com um frescor que há muito tempo não se via na cena progressiva.
O segundo disco - Bridge Across Forever – lançou-os à novas fronteiras, com um som mais pesado , autêntico, que trazia como principal característica a participação não usual de todos os membros da banda nos vocais das músicas.
O próximo álbum promete, e a minha leve e distinta opinião é que eles foram e ainda podem continuar sendo o mais rico projeto paralelo criado na música, e ainda uma das melhores bandas de progressivo que já existiu, um elixir da música. Se houvessem aparecido ao mundo na ida dos anos 70 ou 80, certamente seriam uma das mais clássicas bandas de todos os tempos, comparada aos mais belos nomes da música já citados aqui no início.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Entrevista com o Contrabaixista Zeli



Esta é a primeira de uma série de entrevistas informais que realizei com músicos da cena instrumental brasileira, que pretendo ir postando aqui no blog.





Nesta vocês podem conferir a entrevista feita com Zeli, baixista conceituado da noite paulistana e brasileira, que tem como destaque seu segundo álbum solo chamado "Em Movimento", cd que particulariza uma música feita num "movimento" muito bem desenhado, com sutilezas brazoocas com um tempero tremendo de músicos que o acompanham como Vitor Alcantara (sax) e Edu Ribeiro (bateria).

Ao vivo, o destaque são as apresentações em conjunto com a cantora Tatiana Parra.

Além de compositor, arranjador, é professor, e também é integrante do grupo de música instrumental Terra Brasil, desde 1991.

Sem mais delongas, vamos à entrevista:



- Primeiro, eu gostaria de saber quais são suas atividades atuais, você leciona, certo? Quais são seus próximos projetos?

Além de dar aulas na Faculdade Santa Marcelina e na Faam, entre os meus atuais projetos viso finalizar logo o Cd em duo com o Vitor Alcantara, faltando mixar, masterizar e lançar. Tenho também meu trabalho de canções que deve ser registrado em breve e o repertório instrumental com meu quinteto.



- Teve algum momento de sua vida, que você consegue distinguir dos demais, que foi o principal propulsor na escolha da carreira de contrabaixista?

Nao especificamente, foi rolando naturalmente...



- Considerando a música brasileira atual, seja ela instrumental ou não, qual você acha a principal contribuição que a música brasileira dá nos dias de hoje à música mundial em termos de ritmo, harmonia, inovação, e cultura ?

Nossa música é rica nesses três aspectos: Ritmo, melodia e harmonia. Acho que essa mistura equilibrada e a originalidade são nossas grandes contribuições.



- Se você pudesse escolher entre quaisquer músicos, instrumentistas, cantores ou cantoras, da música brasileira atual para compor um "supergrupo", quem deles, dos quais você nunca tocou antes junto, você gostaria de tocar?

André Memhari, Tutti Moreno e Hamilton de Holanda.



- Qual foi o momento mais marcante na sua carreira? Uma composição? Uma gig? Uma improvisação especial?

Vários momentos, não destaco um só... tocar em Paris com a Badi Assad foi bem legal.



- Se uma pessoa tem dor de dente, vai ao dentista, se tem dor de cabeça, vai ao médico. E se ela tem dor na alma, vai ver um músico tocar?

Sim, é uma ótima receita pra se reciclar e se motivar, voltar pra casa e estudar...


Links de vídeo e sites de Zeli:

http://www.myspace.com/zelisilva

http://www.zelibass.com/

Vídeo c/ Fábio Torres no piano e Edu Ribeiro na batera:

http://www.youtube.com/watch?v=NKkCE3MjOHo&feature=PlayList&p=A83A7E6EA338A18B&index=0&playnext=1

sexta-feira, 27 de março de 2009

Supermousse- Estilo e Criatividade



Não poderia deixar de postar aqui o projeto do Caio Bauléo, grande amigo, compositor e guitarrista, na qual tive a honra de participar na batera da música Velho Espaço Novo (pré-mix).


"O SUPERMOUSSE nasce de um concentrado de estilos que formaram Caio Bauleo no decorrer de toda a sua carreira como músico. Inspirado por grandes bandas, os elementos em sua musica soam sutilmente sem querer provar nada. A simplicidade e a construção de versos....chicletes mentais.... é uma têndencia definitiva para os novos momentos de vanguarda juvenil. Aliás, Vanguarda é passado. O Supermousse não se restringe a jovens somente e sim a todos que queiram ouvir um bom som para toda hora. Sejam bem vindos ao myspace da banda :"

terça-feira, 10 de março de 2009

domingo, 8 de março de 2009

Dafnis Prieto - Latin Music !


Dafnis Prieto, baterista nascido em Cuba. Excelentes ritmos e timbre impecável, e que produção dos cds...


Vá até o link Listen to Tracks do site e ouça com seus próprios alcances auditivo-musicais:



Neste vídeo ele está no festival Modern Drummer que acontece todo ano:



Contem-me as impressões que vocês tiveram...

sábado, 31 de janeiro de 2009

Pete Lockett- Música indiana na bateria e percussão


Pete Lockett, um versátil percussionista, neste vídeo junto aos bateristas Russ Miller e Steve Smith, divulgam um pouco da arte rítmica indiana, acoplada a uma roupagem nova e contemporânea de tocar bateria musicalmente.


segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

The Feeling- rock com feeling


Rock britânico com sensibilidade em detalhes de influências de Beatles e Queen.

Destaque para a música Rosé, nesse vídeo gravado Live in Abbey Road:



quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

André Mehmari - Intuição a serviço da técnica


André Mehmari, uma aula de improviso e intuição, é um músico que colhe sementes dos mais variados estilos musicais. Ele, nascido em Niterói, e com grande parte de sua vida musical desenvolvida e iniciada em Ribeirão Preto, fundiu em sua carreira vários ingredientes musicais, como o Jazz, Música brasileira e o erudito. Compositor, e excepcional arranjador, tem em sua técnica soberba seu tapete onde se apoia, mas é um pianista daqueles que tem algo mais a mostrar, que consegue expressar através de sua música um chamado mais profundo de alma e vigor musicais que faz com que todos os seus ouvintes tornem-se imediatamente “letrados” em música, por sua capacidade de tocar música de excelente qualidade para proporcionar a qualquer ouvido treinado ou destreinado uma bela degustação.


Nesse vídeo, ele toca uma bela composição de Edu Lobo e Chico Buarque:



Aqui, em forma fantástica com Suíte Clube da Esquina:

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Johnny Cash : Eternizando



Música para meditar, música para sonhar e recordar... Essa é Hurt.


Nesse clipe do lendário Johnny Cash, impossível passar sóbrio e não se emocionar assistindo e ouvindo a essa música composta por Trent Reznor. Imagens da vida do cantor associadas à bela voz e interpretação nos dão a imagem do que o clipe e a música querem passar: Transitoriedade, dor e a beleza presentes na vida.

http://www.youtube.com/watch?v=SmVAWKfJ4Go

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Esperanza Spalding - Talento e Graça




Linda, talentosa e carismática. Um veneno bom que alucina as mentes mais sãs. Essa é Esperanza Spalding, uma das atrações que vieram ao Tim Festival deste ano de 2008.
Com arranjos sinceros e trabalhados, uma voz intensa e além de tudo uma contrabaixista competente , com um grupo de igual sinônimo, agradou aos mais “Ezperançosos” corações na noite em que se apresentou. Mas esse show é só a vinheta de uma fonte que desagua vários prazeres agudos ao ouvir e assistir a ela.

Siga um deles:

Dave Weckl - Reinventando


Dave Weckl pode ser um baterista renomado no mundo da música instrumental por sua dedicação ao instrumento e precisão, e pelo constante movimento nos seus conhecidos álbuns solo (que indico aqui o disco Synergy, um dos mais interessantes dele) , e pela grande contribuição a um grande companheiro da música -- Chick Corea--, mas uma qualidade inerente a ele e à sua música é sua capacidade de se reinventar ao longo da carreira, trazendo sempre novas configurações ao seu kit de batera, e com novos grupos e estilos musicais, nunca satisfeito com sua demanda e a do público.

Uma gig recente bacana pode ser vista aqui neste link:
Abrs!